Desde o dia em que ouvi, pela primeira vez, “Non, je ne regrette rien”, de Édith Piaf, no som daquele carro, jamais consegui esquecer o turbilhão de sentimentos e a dor que aquela voz me transmitia. A tradução só fui conhecer anos mais tarde…
O que me deixava perplexo não era a técnica, a qualidade vocal ou mesmo a letra em si, mas o sentimento. Aquela dor crua, aquele coração escancarado em cada frase. Tudo aquilo me preenchia a cada música. Foi então que me deixei encantar por uma cantora pobre, mas imensa em alma. Capaz de traduzir os sentimentos de milhões de corações apaixonados que ainda hoje caminham por Paris ao som de “La Vie en Rose” ou “Sous le ciel de Paris”, melodias eternizadas pelos acordeonistas que ocupam as calçadas da Ville Lumière.
Édith foi negligenciada pela própria família, deixada de lado por quem deveria protegê-la, e criada entre prostitutas sob os cuidados da avó materna. Dos cinco aos seis anos de idade, ficou parcialmente cega em decorrência de uma queratite, recuperando a visão apenas após uma peregrinação a Lisieux, onde teria pedido a intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira da França, que à época sequer havia sido canonizada.
Piaf significa pardal. E o pequeno pardal francês parece nunca ter conhecido outra coisa senão a dor. Rejeitada pela família e ferida por aqueles de quem merecia amor, Edith viu sua carreira florescer, mas jamais conseguiu encontrar verdadeiro alento ou afeto duradouro. Hoje, sua obra é ignorada por muitos franceses e desconhecida por milhões de pessoas, enquanto outros a veneram como a voz que, mesmo transpassada pela dor, soube cantar o amor como poucas.
Ao contemplarmos a vida de uma mulher marcada pelo abandono e pela solidão, mas que se tornou mundialmente reconhecida como uma voz suave, intensa e profundamente humana, capaz de projetar a França no mapa da “chanson d’amour”, compreendemos que o amor verdadeiro não nos é estranho, nem depende exclusivamente de quem nos ama. O amor é vivo, perene e paciente, como escreve São Paulo, porque, no fim, “Peu m'importe, si tu m'aimes”.
Em 19 de dezembro de 2025, celebramos os 110 anos desta mulher que, com sua voz suave e cheia de sentimento, soube encher o mundo com uma canção linda e emocionante. Que possamos encontrar cada dia mais Piafs em nosso mundo e que o legado de Édith seja eterno!

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