Para o padre Rodrigo J. da Silva, “partindo da perspectiva cristã católica, antropológica e espiritual, é nosso dever cuidar e zelar, com equilíbrio, pela vida de todos os seres”.
Nós, catarinenses, estamos acompanhando a comoção da população, por meio das redes sociais, dos jornais impressos, dos programas de televisão e de muitas outras formas, diante da morte do cão Orelha. De fato, precisamos resgatar a consciência de que tudo é criatura de Deus. Justamente por isso, o Papa Francisco nos desafiou, na encíclica Laudato Si’, à vivência de uma espiritualidade integral, na qual nós, pessoas humanas, somos chamados a nos sentir parte da dinâmica da vida, contribuindo para uma relação fraterna com todas as criaturas, tenham elas vida ou não.
A espiritualidade integral desafia-nos a uma visão abrangente do mundo e da natureza, rompendo com a perspectiva egoísta que nos faz sentir senhores, exploradores e dominadores. É justamente o contrário: na criação, não há dominadores nem senhores.
Somos chamados a respeitar toda a obra criada e a buscar a harmonia, pois Deus nos fala por meio da criação. Deus revela-se pela criação. Tudo nos conduz a Deus; contudo, é preciso recordar que nem tudo é Deus, caso contrário, cairíamos no panteísmo.
Partindo dessa perspectiva cristã católica, antropológica e espiritual, é nosso dever cuidar e zelar, com equilíbrio, pela vida de todos os seres. Assim, a comoção pela morte do cão Orelha é legítima e correta. Contudo, ela também deve nos interpelar, pois é compromisso nosso indignar-nos e comover-nos diante de tudo aquilo que agride a vida em todos os seus níveis e instâncias, seja a dos mais frágeis ou a dos mais fortes, a dos animais ou a das pessoas, bem como diante dos desmatamentos, das diversas formas de poluição, das corrupções e das injustiças.
O problema não está em defender ou exigir justiça para os responsáveis pela morte brutal do cão Orelha, que, segundo relatos, antes do episódio já causavam temor no bairro. O problema está no desequilíbrio e na desproporção. Assim como houve indignação pela morte do cão Orelha, a opinião pública e as pessoas de bem deveriam indignar-se também diante de tantas outras formas de agressão, violência e morte que passam despercebidas em tantas cidades catarinenses, bairros e famílias, muitas vezes tão próximas de nós.
Muitos clamam por justiça pelo Orelha, o que é legítimo, mas não se incomodam com tantas atrocidades que ferem a vida, que não derramam sangue, mas destroem a dignidade, a esperança, os sonhos e os projetos, atingindo profundamente a casa comum ou ferindo, em nossas cidades, o direito e a dignidade dos cidadãos. É esse desequilíbrio que deveria nos questionar. Diante dessa realidade, não podemos fechar os olhos: há entre nós uma inversão de valores, uma clara desproporção. Muitas vezes, defendemos apenas aquilo que nos convém ou aquilo que não exige de nós esforço, sacrifício, tolerância ou perdão.
Hoje damos voz a uma voz silenciada, a do cão Orelha. Contudo, quantos, talvez neste mesmo momento, estão gritando por socorro e por dignidade, como Jesus na cruz, e não os ouvimos porque não nos agradam, não pensam como nós ou não fazem partedo grupo ao qual pertencemos. Com facilidade nos dividimos e, quase automaticamente, criamos abismos que nos distanciam cada vez mais uns dos outros. Será que não é hora de superarmos o apelo meramente afetivo e emocional e assumirmos uma postura de maior lucidez e maturidade? Quando defendemos a vida de forma desequilibrada e desproporcional, não geramos vida, mas reforçamos dinâmicas de morte. Quando a defesa da vida se torna seletiva, já não é vida que defendemos, mas a nossa própria conveniência.
Padre Rodrigo J. da Silva - Diocese de Tubarão