Instrumento busca tirar da vítima a responsabilidade de reconhecer sozinha o risco de violência e transfere ao Estado o papel de agir antes do feminicídio
Uma pesquisa inédita desenvolvida em Santa Catarina pretende ajudar o poder público a agir antes que casos de violência contra a mulher terminem em tragédia. O projeto busca criar uma ferramenta capaz de identificar homens com maior risco de cometer feminicídio, permitindo que autoridades reconheçam sinais de alerta e adotem medidas preventivas para proteger possíveis vítimas.
A iniciativa é conduzida pela pesquisadora norte-americana Dabney Evans, da Emory University, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). O estudo teve início no fim de 2025 e parte de uma questão central: entender quais características diferenciam agressores que exercem violência daqueles que podem chegar ao extremo de assassinar suas companheiras ou ex-companheiras.
Para construir essa espécie de "escala de risco", os pesquisadores irão analisar centenas de fatores associados à violência doméstica. O trabalho contará com a participação de especialistas de diversos países, profissionais que atuam na rede de proteção às mulheres, condenados por feminicídio e outros agressores. A expectativa é identificar padrões de comportamento capazes de indicar quando a violência pode evoluir para um crime fatal.
Segundo os responsáveis pelo projeto, a proposta é transferir para o Estado parte da responsabilidade de identificar o perigo, em vez de deixar que apenas a vítima reconheça os sinais. Quando concluída, a ferramenta poderá auxiliar tribunais, polícias e órgãos de proteção na avaliação de risco e na adoção de medidas preventivas, como reforço de medidas protetivas e monitoramento de casos mais graves. A previsão é que a pesquisa seja finalizada em agosto de 2027.
Em um país onde, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, quatro mulheres foram vítimas de feminicídio por dia em 2025, os pesquisadores acreditam que a nova ferramenta poderá representar um avanço importante na prevenção da violência extrema e na preservação de vidas.